Tendo alguma esperança de que os meus erros fossem matemáticos, prometi ensinar-me a contar. Jesus na cruz, a Virgem Maria e mais um punhado de Santos são testemunhas. Contou-me o meu pai, que também assistiu a tudo, apesar de não ser santo e nem para lá caminhar. Foi em agosto de um ano qualquer.
Depois conheci-te. Estavas na sala que desenrascámos para um último ensaio antes do nosso concerto no conservatório – dizíamos, os da banda, que era aquele o nosso primeiro passo para a internacionalização: depois acabaríamos por sair da nossa cidade, depois o distrito já seria outro e estaríamos a tocar nas beiras, depois Espanha, França e, finalmente, Wembley (o Central Park ficaria para a tourné seguinte…).
Mas as coisas correram mal logo nesse nosso primeiro passo: tropecei nas minhas cordas vocais e caí, sem voz, à frente de toda a gente e de ti. O sonho acabou, a banda nem chega a ser a reunião de amigos que queríamos que fosse. Somos uns palermas.
Acho que te desiludi logo nesse dia e passei a evitar-te. Enquanto pude.
E se é verdade que alguma verticalidade está guardada no coração, então acabei mesmo por perder a que me restava – não, não te preocupes, não a roubaste. Eu é que a perdi em ti.
Quis contar-te tudo isto e não consegui.
É esta a razão por que não acredito em Jesus, na cruz, sentado ou em pé, nem na Virgem, nem em nenhum Santo. Nem na fantochada da campanha a propósito da morte de Lúcia.